Política

Quando as pessoas se dividiram entre direita e esquerda?

Postado em: 28-02-2021 às 14h30
A polarização resulta em extremismos e intolerâncias, assim como vimos nos últimos anos, principalmente com as eleições de 2018 | Foto: reprodução

Augusto Pereira

Desde março de 2015 o debate político brasileiro se popularizou e ganhou as ruas com as manifestações contra o governo de Dilma Rousseff. A ação dos manifestantes e, principalmente, a articulação golpista dos governos brasileiros resultaram na aprovação do processo de impeachment contra a ex-presidenta do Brasil, em 31 de agosto de 2016. Neste cenário, é importante analisar qual a relevância da população nesse processo.

Vamos lembrar a Fernanda, na época com 17 anos. Ela participou no dia 15 de março de 2015 da primeira manifestação pró-impeachment. Quando foi abordada por jornalistas, que a questionam sobre qual o motivo dela estar presente, e no ápice da entrevista perguntam por que ela se considera uma pessoa de “direita”. A resposta dela foi a seguinte: “Mãe [chamando a mulher que está próxima], por que eu sou de direita?”

A situação apresentada, além de ser bastante engraçada, também levanta a questão de que às vezes nos falta conhecimento político para nos posicionar diante da sociedade. A gravidade disso está quando somos feitos de “massa de manobra” e conduzidos por uma minoria para um interesse que desconhecemos. Por isso, convidamos o cientista político, Guilherme Carvalho, e a professora e mestre em história, Mohana Ribeiro, para esclarecer como se formaram e como são atualmente os campos opostos da política.

Para contextualizar, voltaremos para agosto de 1789, na França. O país vivenciava uma importante ruptura histórica, a Revolução Francesa. Naquele mês, aconteceu a Assembleia Constituinte para votação sobre o poder que deveria ter Luís 16, monarca do país e casado com Maria Antonieta, da Áustria. Ela que é conhecida pela frase “Se não tem pão, que comam brioches” ao comentar sobre os franceses que morriam de fome.

O contexto sócio político era dividido entre os adeptos da Coroa e os revolucionários interessados em derrubá-la. Segundo historiadores, a disposição dessas pessoas nas cadeiras do parlamento francês era: os conservadores se sentaram à direita e os progressistas à esquerda, motivados pelo calor do momento e por suas afinidades.

A ala conservadora (direita) defendia que a revolução fosse contida, era favorável a instalação de uma monarquia constitucional na França e, com isso, o rei continuaria tendo o poder e o direito ao veto absoluto sobre todas as leis. Os revolucionários (esquerda) defendiam uma mudança radical no sistema, em que o monarca só tivesse direito a um único veto suspensivo e temporário, ou seja, o fim do poder absoluto.

Então, no dia 28 de agosto de 1789, na Assembleia Constituinte da França, vencia os progressistas (esquerda) com 673 votos por 325 dos conservadores (direita), de acordo com os registros do Senado francês. Esta votação marcou o curso da Revolução Francesa e resultou na morte por guilhotina de Luís 16, Maria Antonieta e seus filhos no dia 21 de janeiro de 1793, na Praça da Concórdia.

Neste contexto histórico francês, crescia uma nova força política, a burguesia e seus ideais de república. Essa tendência revolucionária se estendeu por toda a Europa e, posteriormente, para o mundo. Junto a isso, a dicotomia das cadeiras na Assembleia Constituinte (direita vs esquerda) também foram disseminadas mundialmente e até hoje está presente na linguagem política.

Segundo a mestra em história, Mohana Ribeiro, a simplicidade dos termos contribuiu para incorporação ao jargão político, pois aproximam o assunto da população. “Ou seja, se existe alguém que pensa de forma muito diferente da minha, que tem uma visão de mundo oposta ao que eu acredito e se essa pessoa se define como “de esquerda”, então automaticamente me enxergo como alguém “de direita”. Não importa muito se eu não sei o significado dos termos, ou se só sei de forma superficial. Eu sei que não sou (não posso ser!) semelhante a essa pessoa com ideias tão diferentes das minhas”, afirma.

No Brasil, a popularização das discussões na internet reforçou que a política não é um tema abstrato e distante. “Os debates virtuais trouxeram polarização, algumas pessoas se tornaram famosas e “influencers” a partir de suas opiniões políticas. O público se identifica com essas personalidades e também com o polo político no qual elas estão”, de acordo com a professora.

Entretanto, o cientista político Guilherme Carvalho, ressalta a importância de aprofundar o conhecimento sobre os campos opostos. “Quando o indivíduo tem informação, pode se posicionar e, com isso, cria a possibilidade de participar de projetos políticos. Portanto, na construção de políticas públicas e na construção de uma sociedade ideal para ele. Isso influencia diretamente no voto e forma que ele se posiciona em sociedade”, disse.

Guilherme dá dicas para o cidadão compreender sua identidade política. “A autoanálise para se posicionar em um desses campos políticos [direita e esquerda] é entender quais são os valores que o formam como indivíduo em sociedade, quem são seus influenciadores ideológicos e qual a visão que possui para construção de uma sociedade melhor”, afirma.

Contudo, existe uma problemática na divisão da sociedade em campos opostos da política. A polarização culmina em extremismos e intolerâncias, assim como vimos nos últimos dois anos com as eleições de 2018. “Acreditar que pessoas com ideais políticos diferentes do seu estão necessariamente em lados opostos dificulta o diálogo e atrasa o desenvolvimento do país, pois onde não há diálogo não há avanço em nenhuma questão”, conclui Mohana.

Por isso, além de conhecer a contextualização histórica dessa dicotomia presente na linguagem política e saber se identificar em uma vertente política que seja mais conservadora ou liberal. Também é necessário estar aberto para o diálogo, pois conhecer o lado oposto pode caminhar para a combinação de ideias que criem uma sociedade mais igualitária, justa e melhor para todos os lados.

 

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