Economia

Sob ameaça, País e a economia caminham sobre o fio da navalha

Postado em: 22-01-2021 às 23h59
Lauro Veiga

O momento político atual mistura componentes já explosivos, produzidos pelo despreparo do chefe da Nação e sua infeliz capacidade de produzir conflitos e mortes em proporções equivalentes, agravados pela estratégia de altíssimo risco adotada pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, ao simplesmente sugerir a adoção do Estado de Defesa como uma possibilidade à disposição de um tresloucado. Esses componentes vêm sendo reforçados pela ameaça de um desastre social iminente, com a retirada integral do auxílio emergencial às famílias mais necessitadas, a escalada da pandemia e a perspectiva nada improvável de uma retração da atividade econômica dentro da crise.

Causa espanto, portanto, que a equipe do ministro dos mercados trabalhe, a esta altura, para criar um “bloqueio preventivo” aos gastos públicos nos primeiros meses deste ano. O mero debate desse tipo de medida em meio ao agravamento da crise sanitária causada pela Covid-19 retrata o grau de insanidade que predomina nos gabinetes bem refrigerados de Brasília. A descoordenação e a desorganização na condução do processo de vacinação, causadas pelo negacionismo assumido e, em consequência, pela dificuldade de planejar ações na área da saúde e pela incapacidade de antever a seriedade do momento, respondem pelo avanço das mortes, pela falta de oxigênio nos hospitais no Norte do País, com mais mortes desnecessárias, e pela dificuldade de acesso a insumos básicos para a produção de vacinas no País.

Desgaste em marcha

Pesquisas recentes mostram o desgaste causado pelo agravamento da pandemia, mas principalmente pela incompetência no enfrentamento do vírus – ou pela decisão de não o fazer, num genocídio programado, a pretexto de salvar a economia (atitude que ignora o simples fato de que a vacina sempre foi a única “salvação” para a economia). Na mais recente edição da pesquisa da Datafolha sobre os humores do País em relação ao desgoverno de plantão, entre ruim, péssimo e regular (afinal, quem considera algo regular não está propriamente satisfeito com o que lhe tem sido oferecido), dois terços dos entrevistados rejeitam o presidente, diante de 61% em dezembro passado. Meros (e surpreendentes) 31% acham o governo bom e ótimo. Entre os eleitores ouvidos pelo instituto, em torno de 79% não confiam (41%) ou confiam apenas às vezes (38%) nos impropérios que o presidente dispara diariamente.

 

Balanço

·   “A incompetência do governo federal, aliada à manutenção da postura negacionista de Bolsonaro, terminam fazendo do início da vacinação um momento de mais incerteza. Agora, a questão da vacina não é apenas técnica, senão que política. Tanto em relação à China e à Índia, quanto internamente”, comenta José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.

·   As incertezas geradas desde o Palácio do Planalto acabam corroendo as expectativas já baixas de melhoras na atividade econômica neste começo de ano. Segundo Gonçalves, “além do retorno do distanciamento social (nos principais Estados), com maior rigor, e da precária situação do sistema de saúde, o horizonte para a recuperação da economia fica mais turvo ainda”.

·   Ainda conforme o economista, “a recuperação foi até outubro de 2020, iniciando-se, importante desaceleração em novembro, certamente decorrente, em parte, da iminência do fim do programa emergencial de transferência de renda”.

·   O endurecimento nas medidas de afastamento social, necessárias para tentar conter a pandemia e evitar o colapso da saúde, terá impacto sobre a atividade não apenas nos centros onde tem sido adotado, a exemplo dos Estados do Norte e nas principais economias do País (São Paulo e Minas Gerais). As regiões que fornecem produtos ou dependem de insumos e bens produzidos onde a crise já levou a novas medidas de distanciamento serão igualmente afetadas.

·   Neste cenário, a inação, por incompetência ou desídia, do governo e de sua equipe econômica será a causa principal de um agravamento das crises social e econômica. Simplesmente porque os impactos da pandemia poderiam ser amenizados substancialmente, como o foram entre abril e setembro do ano passado, pela adoção de políticas públicas de apoio aos mais vulneráveis, e destinadas ainda a dar sustentação aos empregos e à renda como forma de manter a economia em funcionamento mínimo.

·   “A combinação de menos atividade com mais incerteza nos mercados deve realimentar a crise política do governo e colocar o País na rota de um confronto delicado. Não falar em impeachment, recessão, inflação, desemprego, nas próximas semanas será difícil”, afirma Gonçalves.

·   A esta altura, parece nítida a discrepância entre um cenário mais animador nas maiores economias do mundo (nos Estados Unidos, com o pacote de US$ 1,9 trilhão anunciado pelo novo governo, e na China, que deverá ser a única economia a crescer num ano de recessão global em 2020) e as perspectivas muito mais sombrias no Brasil. Por culpa exclusiva do desgoverno genocida.

 

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