Quarta-feira, 21 de outubro de 2020
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Economia

Mercado e Governo tentam justificar "arrocho" nas contas dos mais pobres

Postado em: 30-09-2020 às 06h00
Mercado e Governo pretendem convencer que escalada inflacionária já começou e que única opção é aumentar preços - Foto: Reprodução

Lauro Veiga Filho

O terrorismo alardeado sem pudores pelas fontes de sempre nos mercados e de dentro do governo pretende convencer corações e mentes de que a escalada inflacionária já estaria em pleno curso e ajudará a construir um desastre econômico maior ainda se, claro, não forem adotadas medidas urgentes para ajustar as contas do setor público já em 2021, quer dizer, se não vier um forte arrocho nas despesas. Tudo por culpa da “explosão” nas despesas públicas ao longo deste ano, mais do que necessária como forma de amenizar os impactos da crise sobre os mais pobres. A consequência tem sido a disparada do déficit primário (gastos menos receitas, excluídos os juros) e a elevação também acelerada da dívida pública. Em ambos os casos, o Brasil estará acompanhado pelo restante das economias no planeta. Ao contrário das jabuticabas, rombos e dívidas em níveis recordes não serão um privilégio brasileiro.

O comportamento mais recente dos preços no mercado atacadista tem sido apresentado como uma forma de confirmar tal catastrofismo inconsequente. Mas uma disparada inflacionária, para aqueles que ainda não estavam por aqui nos anos 1980 e 1990, caracteriza-se por uma tendência generalizada de alta dos preços em todos os setores da economia, causando um agravamento da carestia, como se dizia à época. Atualmente, mesmo diante dos aumentos registrados de forma mais pronunciada nos mercados atacadistas, os índices de preços que medem a inflação ao consumidor continuam muito bem comportados quando se observam períodos mais longos, o que reflete a debilidade flagrante da atividade econômica e a ociosidade elevada, com fábricas e linhas de produção ainda paralisadas por falta de demanda.

Pressão, mas não de demanda

Adicionalmente, mesmo no atacado, os aumentos concentram-se principalmente em setores mais afetados pela desvalorização do dólar (o que torna não apenas os produtos importados mais caros, mas também encarece bens destinados à exportação). Em alguns segmentos da economia, a desorganização ditada pela crise sanitária, que levou à desarticulação de cadeias de fornecimento de insumos e matérias-primas, também tem causado encarecimento de alguns itens. Em outros, o abandono de políticas de segurança alimentar, como já analisado neste espaço, e a consequente escalada das exportações drenaram a oferta doméstica e levaram a aumentos de preços, notoriamente no caso do arroz.Nenhum daqueles fatores pode ser relacionado a “surtos de demanda”. Mais claramente, as altas agora observadas tendem a se dissipar mais à frente porque não há demanda que possa dar sustentação a esses aumentos de preços.

Balanço

·   A dificuldade enfrentada pelo varejo e pelas indústrias mais próximas do consumidor final para repassar os aumentos de preços verificados no atacado pode ser vislumbrada a partir das pesquisas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

·   O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), medido pela FGV, subiu nada menos do que 4,34% em setembro, acumulando variação de 14,4% entre janeiro e setembro deste ano e nada menos do que 17,94% nos 12 meses encerrados no dia 20 deste mês.

·   Os preços ao consumidor, na média do período, subiram 0,64% entre 21 de agosto e o dia 20 de setembro, comparados aos valores médios aferidos nos 30 dias imediatamente anteriores. A variação foi mais intensa do que a taxa de 0,48% observada em agosto, mas muito distante dos índices colhidos no mercado atacadista.

·   Em nove meses, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da mesma FGV registrou variação de 2,03% e acumulou elevação de 3,04% em 12 meses, uma fração do salto observado no atacado. Grosso modo, numa observação preliminar, o varejo teria conseguido repassar ao consumidor menos de 17% da variação registrada no atacado.

·   Ainda assim, apenas três grupos de despesas contemplados pelo IPC registraram variação mais forte na passagem de agosto para setembro e cinco deles anotaram desaceleração no ritmo de alta. Com aumentos maiores para os preços do tomate (16,46%), arroz (11,08%) e leite longa vida (6,05%), o custo da alimentação variou 1,30% em setembro, com elevação acumulada de 9,08% em 12 meses.

·   Os gastos com educação, leitura e recreação, que haviam recuado 0,62% em agosto, subiram 1,73% em setembro, sob influência quase exclusiva dos preços das passagens aperas, que passaram a subir 23,74% em setembro, depois da queda de 3,57% registrada no mês anterior. Com altas de 2,66% e de 3,36% em agosto e setembro, respectivamente, a gasolina puxou o avanço da “inflação” dos transportes de 0,87% para 1,07%.

·   As commodities mais exportadas pelo Brasil foram também as que maiores pressionaram a alta nos preços no atacado. No mês de setembro, os preços do minério de ferro, da soja em grão, do milho, dos bovinos e do arroz subiram, pela ordem, 10,81%, 14,32%, 14,89%, 7,38% e 38,93%. Para reforçar a tese aqui exposta, no varejo, os preços do arroz apresentaram elevação de muito menos de um terço do salto captado no atacado.

·   O Índice de Preços ao Produtor (IPP), do IBGE, que afere a variação dos preços “na porta da fábrica”, descontados impostos e fretes, subiu 3,22% em julho e 3,28% em agosto, passando a acumular alta de 10,80% em oito meses e de 13,74% em 12 meses (a inflação ao consumidor, no mesmo período, registrava variação de 2,44%).

·   No mês passado, quatro setores da indústria responderam por 69,5% do IPP – alimentos, derivados de petróleo e biocombustíveis, outros produtos químicos (adubos e fertilizantes, por exemplo) e indústria extrativa.

 

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