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Economia

Investimento estrangeiro cai 21,9% em fevereiro, antes do coronavírus

Postado em: 26-03-2020 às 06h00
No acumulado do primeiro bimestre, o investimento estrangeiro total sofreu baixa de quase US$ 1,9 bilhão - Foto: Divulgação

 Lauro Veiga

Mesmo antes de o coronavírus aportar por aqui, o mercado de dólar já experimentava alguma turbulência, estimulada pelo desaquecimento já em marcha das principais economias globais, pela agitação que havia movimentado a indústria do petróleo no início de janeiro e por incertezas em relação à evolução do surto virótico, ainda concentrado principalmente na China. Aqui dentro, a perturbação vinha do Palácio do Planalto, com embates entre o líder do Executivo, Congresso e governadores. Essa combinação ainda modesta de eventos já havia sido suficiente para que empresas estrangeiras reduzissem os investimentos diretos no País em 21,94%, saindo de US$ 7,682 bilhões em fevereiro do ano passado para US$ 5,996 bilhões no mesmo mês deste ano.

A maior queda, segundo dados liberados ontem pelo Banco Central (BC), atingiu os chamados investimentos em participação no capital, envolvendo geralmente a compra de ações de empresas já instaladas aqui dentro e muitas vezes a aquisição de empresas inteiras por grupos multinacionais. Nesta rubrica, a conta desabou de US$ 5,229 bilhões para US$ 2,336 bilhões, num tombo de 55,3%. As operações realizadas entre companhias de um mesmo grupo, classificadas pelo BC também como investimento estrangeiro, por sua vez, saltaram 49,2%, de US$ 2,453 bilhões para US$ 3,660 bilhões (o que, obviamente, não compensou a retração observada para os investimentos em participação).

No acumulado do primeiro bimestre, o investimento estrangeiro total sofreu baixa de quase US$ 1,9 bilhão, caindo de US$ 13,510 bilhões para US$ 11,615 bilhões. Desta vez, algo que não acontecia há anos, o investimento não foi suficiente para cobrir todo o déficit de US$ 15,784 bilhões acumulado pela conta de transações correntes do País, que resume todas as transações realizadas pelo Brasil e suas empresas com o restante do mundo. Houve um salto de 27,51% no tamanho desse déficit, que havia alcançado US$ 12,379 bilhões nos dois primeiros meses de 2019.

Torra de reservas

Isso não significa que o País poderá enfrentar problemas mais sérios em suas contas externas, a despeito da crise. Mas qualquer corrida contra o real e uma fuga mais expressiva de dólares para “portos” mais seguros (títulos do Tesouro dos Estados Unidos e ouro, por exemplo) podem fazer acender o sinal amarelo, considerando as trajetórias recentes do déficit em transações correntes, investimentos estrangeiros e, mais recentemente, das reservas internacionais. Entre os dias 9 e 24 de março, o estoque de reservas em moedas fortes em poder do BC foi reduzido em US$ 24,266 bilhões, num recuo de 6,6%, passando de UD$ 367,658 bilhões para US$ 343,392 bilhões – nível mais baixo desde 25 de julho de 2011, quando o País acumulava reservas de US$ 342,268 bilhões. É claro ainda é um número bastante confortável. O que preocupa é a trajetória recente e a disposição do BC para queimar reservas às portas de uma crise que promete ser severa.

Balanço

·   Nas contas do Itaú BBA, considerando uma média móvel trimestral “dessazonalizada e anualizada” (quer dizer, descontados fatores não recorrentes e multiplicando os números por 12), o déficit em conta corrente saiu de US$ 51,0 bilhões em janeiro para US$ 62,0 bilhões em fevereiro, em alta de 21,6%.

·   A expectativa, de qualquer modo, é de um recuo do rombo nos próximos meses, em função da queda esperada para a atividade econômica doméstica e da alta do dólar. Essa combinação tenderá a reduzir importações e, em teoria, deveria ajudar a elevar as exportações (porque sobraria mais produtos aqui dentro para serem exportados, ajudados pelo câmbio mais favorável).

·   O problema, no caso das vendas externas, é que o comércio global está encolhendo rapidamente, o que, combinado com a forte redução nos preços do petróleo, já derrubando os preços das commodities minerais e agrícolas, principais itens na pauta de exportações do Brasil.

·   A retração da demanda e da renda das famílias, associada mais uma vez ao dólar mais caro, deve contribuir para reduzir ainda mais as despesas com viagens ao exterior (que já desabaram 27,8% no primeiro bimestre), gastos com fretes internacionais (diante da menor movimentação de bens e mercadorias) e as remessas de lucros e dividendos (que devem ser muito menores, inclusive pela queda das ações em bolsa).

·   Os dados preliminares da inflação de março, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), do IBGE, deveriam contribuir para reduzir o alarmismo criado nas últimas semanas, especialmente nas redes sociais, em relação aos preços. A falta de demanda e as quedas dos preços dos combustíveis e passagens aéreas fizeram a inflação murchar de 0,25% nos 29 dias de fevereiro para 0,02% nas quatro semanas encerradas em 15 de março – a taxa mais baixa para o mês desde o lançamento do Plano Real, em 2004.

·   O índice acumulado em 12 meses baixou de 4,01% no final de fevereiro para 3,67% – lembrando que essa taxa havia alcançado 4,21% apenas quatro semanas atrás. A meta inflacionária para este ano, como se recorda, está fixada em 4,0%. O “núcleo” de preços mais sensíveis à evolução da demanda manteve-se estacionado em 2,6% também no acumulado em 12 meses, conforme dados do Itaú BBA.

 

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