09 de abril de 2020
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coluna Econômica

Desembolsos do BNDES para comércio e infraestrutura desabam 51% e 42%

Publicado por: Lauro Veiga Filho | Postado em 09 de abril de 2020
Menos crédito de longo prazo para financiar projetos de investimento compromete o desempenho da economia e as possibilidades futuras de crescimento - Foto: Reprodução.

Lauro Veiga Filho

Resultado de uma política premeditada de desmonte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), os desembolsos e as consultas encaminhadas ao banco de fomento pelas empresas no ano passado em Goiás encolheram vigorosamente, retornando a níveis verificados apenas no começo da primeira década deste século. No primeiro caso, houve menos crédito de longo prazo para financiar projetos de investimento, sobretudo para o setor de infraestrutura, área vital para o bom desempenho da economia como um todo. No segundo caso, a retração das consultas sugere baixo interesse das empresas na realização de novos investimentos, o que, mais uma vez, poderá comprometer as possibilidades futuras de crescimento – a depender de como a economia brasileira sairá da crise provocada pela pandemia de Covid-19, o coronavírus.

As consultas, primeira etapa no processo de contratação de empréstimos e financiamentos do BNDES, sofreram baixa de 4,63% na comparação entre 2019 e 2018, baixando de R$ 2,136 bilhões para R$ 2,037 bilhões em valores não atualizados. Descontada a inflação, a queda aproximou-se de 8,4% (no Brasil como um todo, as consultas encolheram praticamente 40%, em termos reais). Sempre em valores nominais (ou seja, não corrigidos com base na inflação), os números de 2019 foram os mais baixos desde 2004, quando as consultas haviam somado R$ 2,036 bilhões.

O melhor momento para as consultas foi registrado em 2014, antes da recessão. Os empresários manifestaram interesse em contratar quase R$ 8,657 bilhões na época. Desde lá, portanto, as consultas despencaram nada menos do que 76,5%, numa retração de R$ 6,619 bilhões. Em termos reais, a redução aproximou-se de 82%, já sinalizando o que ocorreria com os desembolsos para à frente.

Os créditos liberados pelo banco de fomento para empresas goianas no ano passado baixaram para R$ 1,649 bilhões, numa perda de R$ 402,971 milhões frente ao total desembolsado pelo BNDES no Estado em 2018, algo levemente abaixo de R$ 2,052 bilhões. Em valores não atualizados, a queda atingiu 19,6% (em linha com o tombo de 20,2% registrado pelos desembolsos em todo o País). A retração foi puxada principalmente pelos setores de infraestrutura, comércio e serviços e veio se agravando ao longo do segundo semestre, pois até junho havia sido anotada um recuo de 5,58% frente aos primeiros seis meses de 2018.

Mergulho

Os projetos de infraestrutura no Estado receberam uma injeção de R$ 396,094 milhões em 2019, em queda de 41,8% em relação aos R$ 680,949 milhões desembolsados nos 12 meses de 2018. No caso, o tombo não foi um “privilégio” de Goiás: em todo o País, os desembolsos para o setor sofreram baixa de quase 36,8% em valores nominais. O mal desempenho do segmento no Estado foi influenciado principalmente pela redução de 56,8% nos desembolsos para o setor de energia elétrica, que saíram de R$ 427,061 milhões em 2018 para apenas R$ 184,638 milhões no ano passado (R$ 242,423 milhões a menos, ou seja, em torno de 85% da queda acumulada pelo setor como um todo na mesma comparação).

Balanço

Ainda no setor de infraestrutura, a construção, que já havia contratado um valor baixíssimo em 2018 (em torno de R$ 2,050 milhões), viu os desembolsos serem reduzidos para meros R$ 500,0 mil (75,6% a menos).

Os serviços de água, esgoto e lixo anotaram perdas de praticamente 70%, com os desembolsos despencando de R$ 8,991 milhões para R$ 2,707 milhões. As atividades auxiliares de transporte contrataram R$ 1,232 milhão em 2019, diante de R$ 20,007 milhões um ano antes, sofrendo baixa de 93,8%.

Com perdas ainda mais expressivas, o segmento de transporte ferroviário recebeu apenas e nada mais do que R$ 16,276 mil (isso mesmo, menos do que o salário de um alto executivo do setor, de qualquer setor). No ano anterior, havia recebido R$ 9,451 milhões. Ou seja, um tombo de 99,8%.

O setor de transporte rodoviário contratou 36,9% a menos, pois os desembolsos nesta área baixaram de R$ 211,509 milhões para R$ 133,462 milhões. Numa exceção, as empresas de telecomunicações tiveram desembolsos de R$ 1,988 milhão frente a R$ 1,624 milhão em 2018 – valores muito baixos, mas que pelo menos apontam elevação de 22,4%.

Proporcionalmente, as perdas anotadas pelos setores de comércio e serviço, considerados em conjunto pelo BNDES, foram até mais intensas do que nos demais grandes setores, embora a contribuição para a redução do total dos desembolsos tenha sido relativamente menor. Na passagem de 2018 para 2019, os valores caíram a menos da metade, baixando de R$ 386,037 milhões para menos de R$ 188,180 milhões (51,25% a menos). Ou seja, aquelas áreas deixaram de receber R$ 197,857 milhões.

A indústria sofreu redução de “apenas” 5,38% nos desembolsos, que saíram de R$ 130,296 milhões para R$ 123,290 milhões. A indústria extrativa sofreu baixa de 42,5% (de R$ 6,517 milhões para R$ 3,746 milhões), enquanto a indústria de transformação contratou 3,4% menos recursos (R$ 123,779 milhões em 2018 e R$ 119,544 milhões em 2019).

No setor de transformação, as perdas mais severas foram sofridas pelo setor de química e petroquímica (queda de 78,7%, de R$ 53,607 milhões para R$ 11,403 milhões). Aqui, a indústria de combustíveis contratou 81,54% a menos, com os desembolsos baixando de R$ 48,617 milhões para R$ 8,974 milhões, refletindo muito provavelmente o ciclo de baixos investimentos no setor de etanol e biodiesel.

A indústria têxtil e de vestuário, ao contrário, experimentaram elevação de 46,8% no volume de desembolsos (de R$ 5,995 milhões para R$ 8,801 milhões), com salto de 48,7% na indústria mecânica (para R$ 5,783 milhões) e de 108,2% para o setor de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (mas com valores muito baixos, passando de R$ 812,807 mil para R$ 1,692 milhão).

No setor agropecuário, os desembolsos cresceram 10,2% ao avançarem de R$ 854,713 milhões para R$ 941,460 milhões. (Especial para O Hoje)

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