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Lúcia Vânia reage sobre a reeleição: “O Marconi pode, eu não posso”

Em tom de desabafo, senadora Lúcia Vânia justifica a falta de espaços para deixar o PSDB. Diz que carrega o fardo das ‘oportunidades’ dadas pelo partido. “Não me deram, dei até logo e fui buscar meu espaço”

Depois de deixar o PSDB a sensação é de alívio?

Não diria de alívio, mas de independência e liberdade. É muito bom saber que posso tomar qualquer caminho e que as pessoas vão compreender isso.

Onde faltava liberdade?

Se sentir extremamente tolhida quando os espaços são estreitos. Trabalhei muito. Tive oportunidade de crescer, desenvolver, estudar bastante, aprofundar. E trabalhar em função do Estado. Preciso de espaço para continuar crescendo e fazendo o trabalho que me propus a fazer, que acredito ser efetivo para o desenvolvimento de Goiás.

Na despedida duas palavras chamaram atenção: esperança e motivação. Mas a população não tem tanta esperança...

Divirjo do partido quando toma outra condução. Sempre entendemos e defendemos com muita força que o país precisa de responsabilidade fiscal, combater a inflação e apresentar resultado. Sempre trabalhei apresentando resultados. No dia em que o partido, ou pelo menos parte do PSDB, entendeu que é preciso fazer oposição mais agressiva, porque as ruas exigem que seja mais contundente, entendi que me sentia desconfortável no partido. Mesmo a rua pedindo ‘agressividade’, nosso papel não é fomentar isso nas pessoas. É de equilíbrio e sensatez. Apontar rumos e suscitar esperança. O país atravessa um dos momentos mais difíceis. A inflação volta, as pessoas estão inseguras, não sabemos que rumo o país vai tomar. Compete a nós termos liderança para conduzirmos as pessoas em um bom caminho, de esperança, fé e crença.

A senhora vai mesmo para o PSB ou pode escolher outro partido?

Recebi convite para vários partidos, mas só tenho dois caminhos e são para partidos de oposição. São siglas que têm mais ou menos identidade com o que sempre defendi: PSB e PPS. Fora desses dois, vejo muitas dificuldades.

Tem data para filiação?

Não. Devo filiar no final de agosto, mais ou menos.

Porque esperar esse prazo?

Ainda estou em conversação com a direção nacional. Quero conhecer bem o pensamento do partido. A forma que vê a economia do país e o atual momento. Estamos nessa fase de discussão. Fiz um jantar na minha casa para a bancada do PSB, para conversarmos por mais tempo. Vou continuar fazendo esse trabalho até que me sinta bem segura para tomar a decisão definitiva.

O deputado federal Jovair Arantes (PTB) disse aqui no Hoje de Frente com o Poder que “o governador Marconi Perillo se distanciou muito dos verdadeiros parceiros”. A senhora tem a mesma opinião?

Há transformações na vida política. O que sinto hoje dentro do PSDB é exatamente essa necessidade de buscar um espaço em que me sinta confortável. É claro que o partido vai se renovando, tomando outros rumos, e temos que nos sentir bem nesses rumos. Se não nos sentirmos bem, o melhor é buscarmos outro espaço para nos sentirmos motivados e com vontade de crescer. Se ficarmos em um partido de forma desconfortável, corremos risco de nos acomodarmos. Isso leva à omissão e cada vez ficamos mais ausentes. Se o partido tomou caminho diferente do que se espera, compete a você tomar seu rumo.

O governador “se distanciou dos parceiros”?

O governador tem que fazer o papel dele. Já está no quarto mandato e não pode ser igual ao primeiro. Tem que se renovar também, buscar mudanças. Acho normal. Porém, se não concordo com essas mudanças, se me sinto mal, é melhor tomar outro rumo do que tentar engessá-lo.

No primeiro mandato, o governador tinha entre os principais apoiadores a senhora e Ronaldo Caiado (DEM). Agora são nomes distantes. Isso é normal?

Sim. Não dá para acompanhar uma pessoa que fica muito tempo no poder. A questão aqui é a reeleição, que não é boa para a democracia, para o país, nem para os partidos. A reeleição cria a necessidade de renovação, que pode magoar companheiros. Muitas vezes é necessário buscar outros caminhos e isso nos traz dificuldades.

A senhora foi candidata a governadora em 1994 e a prefeita de Goiânia em 2000. Pretende disputar cargo executivo?

Não, fiz opção de não disputar cargo executivo enquanto não houver mudança radical na reforma política.

Por quê?

Porque não me sinto bem com esse financiamento de campanha. Para disputar o executivo da forma como está sendo feito, corre-se risco enorme de ficar comprometido com grupos e pessoas que se buscou o financiamento. Prefiro não correr esse risco.

Qual o financiamento ideal?

O ideal será possível quando a população puder optar por determinado candidato e ajudar financeiramente, fazendo doação própria. Empresas também poderiam fazer doação, mas não deveriam ter contrato com o Estado. Empresa que tem contrato com o Estado não pode ser financiadora de campanha.

A Câmara dos Deputados aprovou doação de empresas para partidos e não para candidatos. A mudança passa no Senado?

É pior ainda. Não é uma relação transparente. A Operação Lava Jato está aí para mostrar isso. Esse tipo de financiamento só traz transtorno e desvio de dinheiro público. Temos que derrubar isso no Senado. Não há como uma empresa ter contratos com o Estado e ser financiadora de campanha.

A senhora será candidata ao Senado novamente?

Não trabalho pensando na próxima eleição. Sempre trabalhei com o objetivo de ter resultados. Como sempre tive sucesso de ter resultado, a eleição vem naturalmente. Não preciso ficar preocupada hoje com a eleição de 2018. Estou preocupada com a eleição de prefeitos. Preciso ajudar e estar nos palanques dos prefeitos que me ajudaram.

O PSB ficará na oposição?

Acredito que sim. O PSB é uma alternativa. Na campanha passada foi depositário dos votos da oposição. O partido hoje não tem a menor condição de ficar na base do governo.

Do que foi aprovado sobre reforma política na Câmara o que deve mudar no Senado?

Aredução do mandato de senador...

Não passa de 8 para 5 anos?

Essa não passa.

Por quê?

É bom que sejam oito anos, pois o Senado trabalha o Estado. O senador precisa aprofundar-se e acompanhar o desenvolvimento do Estado. Se outra pessoa entra no lugar, quando conseguir pegar ritmo, os quatro anos do governo já passaram. Acompanho e tenho todo o histórico da dívida do Estado há mais de 10 anos. Quando chego em Ministério para tratar da questão, domino o assunto. A Câmara (Federal) trabalha o município. É algo menos complexo. O senador é o ‘governador’ em Brasília. Precisa trabalhar no mesmo ritmo que o governo. Quebrar isso não é bom. Por isso o mandato de oito anos é ideal para o Senado, pois o parlamentar não se preocupa muito com eleição. Pode votar com independência. No Senado estudamos a situação do Estado e temos avaliação mais segura.

A dívida do Estado é preocupante?

Em relação a outros estados, Goiás tem situação bem melhor. Não é porque as contas públicas estão equilibradas. Acontece em função da vocação da nossa região, que tem economia forte baseada na pecuária e agricultura. Esses dois segmentos respondem muito rápido às ações. Em pleno ajuste fiscal, a presidente Dilma Rousseff teve que buscar recursos suficientes para manter a agricultura. A resposta é muito rápida. Nosso estado tem poder de recuperação muito grande. Isso facilita.

A saída do PSDB muda a atuação da secretária da Fazenda, Ana Carla Abrão, filha da senhora?

A vida profissional dela foi construída com independência e estudo. Saiu de casa para estudar com 14 anos. A Ana Carla é totalmente independente, escolheu os caminhos que quis e teve grande sucesso. O caminho dela é dela e o meu é meu. São caminhos diferentes. Também trilhei outros espaços, mas sempre com independência e liberdade. Meus filhos nunca tolheram minha posição. Da mesma forma, não tenho direito de interferir na escolha dela.

Falta cota para mulheres na reforma política?

Votaria pelas cotas. Há discriminação muito forte contra a mulher na atividade política.Talvez, de todas as atividades, a política seja a que mais faça restrição à presença da mulher.

É machista?

No discurso de mudança de partido disse que a mulher só se dará bem na atividade política no dia que tiver espaços de poder e for compreendida com suas especificidades. A mulher é menos agressiva no debate, menos afeita ao contraditório e mais suave na relação com o poder. Porém, não é menos competente ou eficiente. Entretanto, tem forma diferenciada de lidar com o poder. Enquanto isso não for reconhecido, a dificuldade da mulher na atividade política será grande. As próprias mulheres se afastam diante da competitividade da atividade política. No corredor do Senado, os senadores ficam ali e é uma luta para pegar o microfone, falar e travar aqueles debates, muitas vezes sem muito sentido. Não é nossa forma de trabalhar, ao não ser uma ou outra mulher que tem mais facilidade para lidar com isso.

Qual o maior preconceito sofrido na carreira política?

Nunca houve preconceito em relação ao trabalho. Não dou chance para isso. Há preconceito às vezes em debates, espaços de poder. O homem é muito cioso na atividade política. Eles podem disputar pelo partido cinco ou seis eleições seguidas, ganhando ou perdendo. Se a mulher disputou uma vez e quer disputar a segunda: “o partido já deu todas as oportunidades a ela”. Não se vê o partido dizer: “Marconi, você vai disputar mais uma vez? O partido já te deu todas oportunidades”. Mas eu estou sempre carregando o fardo do espaço que o partido me deu...

Citam inclusive que teve garantida candidatura ao Senado em 2002...

Nunca falam “a senhora está disputando o Senado porque conquistou espaço com trabalho, dedicação e andando pelo Estado todo”. Isso não existe. Existe a história de que o partido meu deu oportunidade. Quando tive dissidência no partido, o (senador) Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) disse que “aqui o partido deu todas oportunidades a ela”.

Umaposição machista?

Uma posição preconceituosa. As pessoas acreditam que a atividade política é masculina. Se a mulher está no parlamento é porque teve oportunidade e não porque conquistou.

Alguma mágoa?

Nenhuma. Tiro de letra. Escolhi essa atividade. Quando se escolhe uma atividade, não tem que ficar chorando porque não há espaço. Tem que fazer como fiz. Não me deram espaço, dei ‘até logo’ e fui buscar meu espaço.

 

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