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Ivânia Fernandes: “Pessoas da terceira idade também têm sido buscadas por traficantes”

Ivânia Fernandes alerta que pessoas da terceira idade estão na ‘mira’ dos traficantes. Exclusão da sociedade e às vezes no vício do álcool tornam a faixa etária vulnerável também ao mundo das drogas

Ela defende discussão ampla e aberta sobre o assunto das drogas. É preciso discutir, conversar e tratar o tema dentro da nossa casa, diz Ivânia Fernandes ao Hoje de Frente com o Poder. No comando do Grupo Executivo de Enfrentamento às Drogas, Ivânia fala dos desafios da prevenção, repressão, reinserção, Credeqs, comunidades terapêuticas e disque Recomeço (0800 6490145). Ao jornalista Murilo Santos comenta com cautela e assustada o crime contra o então prefeito Daniel Antônio, de Matrinchã,interior do Estado. Ela foi duas vezes prefeita da cidade.

Como enfrentar as drogas?

Dentro desse tema existem muitos problemas. O Estado de Goiás tem tomado direção diferente sobre o assunto. O governo federal também tem feito isso. Foi criado em Goiás no ano de 2012 o Grupo Executivo de Enfrentamento às Drogas. O governador sentiu a necessidade de criar um órgão específico para trabalhar as políticas públicas. A primeira medida foi detectar quais eram as instituições e órgãos que trabalhavam diretamente com usuários de drogas no Estado para oportunizar o sistema de acolhimento...

São muitas instituições?

De acordo com o mapeamento temos 138 instituições em Goiás, entre comunidades terapêuticas para acolhimento e clínicas para o processo de desintoxicação, que também fazem o trabalho de acolhimento.Percebemos que não basta cuidar, é preciso desenvolver o processo de reinserção desse cidadão, que já conseguiu ficar longe do mundo das drogas, de volta à sociedade. Dentro desse eixo trabalhamos o usuário com a dependência psicoativa e também a capacitação junto às comunidades para poder reinserir esse cidadão.

Quando e onde a pessoa entra no mundo das drogas?

Hoje as drogas estão soltas em todos os meios e espaços físicos, como escolas, praças, clubes, festas e colegas. Não andam, são levadas. Onde tem duas ou três pessoas reunidas, dependendo da situação, um deles pode ser o que transporta a droga. Além dos jovens, pessoas de terceira idade também têm sido um público buscado pelos traficantes...

Por quê?

Porque o aposentado já se sente muitas vezes um pouco excluído da sociedade. Em alguns casos existe alguma dependência do álcool, jogatina ou alguma outra coisa do tipo que o faz vulnerável. O atrativo nesse caso é o cartão da continuidade do recebimento mensal. Infelizmente, hoje não podemos dizer que a droga está inserida apenas no meio dos jovens. Na terceira idade temos muitas pessoas que estão buscando esse mundo do convívio e de dependência de produtos psicoativos.

Na prática, o que o Grupo pode fazer para minimizar o problema?

Isso tem sido muito discutido. Temos quatro eixos de trabalho. A repressão é um deles e é realizada pela Secretaria de Segurança Pública, por meio da Delegacia Estadual de Repressão a Narcóticos (Denarc). É um dos órgãos que compõe o Grupo Executivo de Enfrentamento às Drogas...

É uma repressão eficaz?

Não posso dizer que seja 100% eficaz porque é difícil. Para que os órgãos competentes cheguem até onde está sendo feita a distribuição da droga é necessário a contribuição da população. Não é um trabalho isolado. A denúncia precisa ser feita. As pessoas precisam começar a perder esse receio de denunciar. A ligação pode ser anônima. Só existe uma maneira de coibir e minimizar o fluxo da droga liberada dentro do nosso convívio: a população precisa denunciar...

Prevenção resolve?

Por meio do Conselho Estadual de Políticas Sobre as Drogas temos trabalhado com outro eixo fundamental que é a prevenção, que consiste em abordar, trabalhar e discutir com a sociedade de que forma começar a conhecer o problema e o que a composição da droga faz ao ser humano, crianças e adolescentes.

Qual o melhor meio para prevenção?

É discutir, conversar, tratar esse tema não como algo de terceiros e sim como nosso, da nossa casa, do nosso convívio diário. Hoje, como os pais trabalham fora, crianças e adolescentes são orientados e cuidados por outras pessoas. Isso distanciou muito a família dos jovens. Precisamos mostrar que por mais que a mulher trabalhe e que tenha agora conseguido atingir esse espaço de igualdade no profissionalismo, ela não pode perder o eixo principal que é a família e os filhos. Precisa orientar, conversar e discutir sobre a questão das drogas e o quanto são nocivas às pessoas que amamos. Não é apenas o usuário que adoece com a droga, a família toda adoece. Todas as pessoas ficam dependentes de alguma forma.

A senhora falou em repressão, prevenção. E os outros eixos de combate às drogas?

Um deles é o cuidado. Trabalhamos criando oportunidade para a pessoa sair das drogas por meio das unidades terapêuticas e dos Centros de Referência e Excelência em Dependência Química (Credeqs). O outro eixo é a reinserção social. O mais importante é a prevenção que deve ser alcançada por meio de trabalho e discussão. Estamos propondo isso. Buscando parceria para discutir junto com a sociedade a melhor forma para prevenir como de fato deve ser feito, com o cidadão.

A reinserção é o mais difícil?

Sim. É difícil. A droga é muito nociva e deixa alguns entraves para que a pessoa se torne livre, principalmente quando o uso é continuo e já dura muito tempo. Já se sentem isoladas e são depressivas. É preciso primeiro reconstruir o cidadão e buscar meios para oportunizar a reinserção da pessoa. O primeiro passo é a família. Se o usuário se sentir bem e acolhido na casa dele, vai sentir a necessidade de produzir, trabalhar e ter amigos longe do mundo das drogas. A reinserção não é fácil. Por isso contamos com várias parcerias e instituições...

Qual a dificuldade dos Credeqs saírem do papel?

O Credeq é novidade no país. O governador Marconi Perillo foi muito ousado ao criar espaço físico para trabalhar políticas públicas na dependência química. Os Credeqs são 100% financiados pelo Estado de Goiás, tanto a construção quanto a manutenção. Existe parceria entre Estado e Município na área e construção. É um projeto magnífico. Coisa de primeiro mundo. Será oportunizado para a sociedade...

Há um Credeq em Aparecida de Goiânia com estrutura física praticamente pronta. O que falta?

O governador, como nas outras áreas da saúde, terceirizou a gestão dos Credeqs. Uma Organização Social (OS) assumirá a administração das unidades. Logo o governador estará inaugurando o primeiro Credeq em Aparecida de Goiânia...

Tem previsão?

Acredito que até meados de outubro ou novembro. Já está na finalização. São adequações. Como é o primeiro, ao terminar uma ala percebe-se que na dinâmica das ações o trabalho a ser executado necessita de algumas adaptações e implementações para que realmente possa, depois que começar a funcionar, não parar. Começamos com uma perspectiva do montante de pessoas a ser atendidas diariamente. Hoje esse número já é 10 vezes maior. Aconteceu com o Hospital de Urgências Governador Otávio Lage (Hugol). A construção começou com uma dinâmica e teve que mudar para melhorar e ampliar, mas está à disposição da sociedade. O Credeq de Aparecida está 95% concluído. Os demais estão em 50% e 70%, quase na fase de acabamento.

O trabalho do Grupo e do Conselho depende também das comunidades terapêuticas...

Sim. Detectamos que muitas instituições são criadas por algum problema pessoal, pessoas muito solidárias, que tem voluntariado aguçado e começam o trabalho, mas esquecem de se organizar. Essas comunidades começam com quatro acolhidos, mas esse número aumenta e as instituições se perdem no trabalho diário. Esquecem que para manter-se de portas abertas existe regulamentação que deveria estar em andamento paralelo para que se possa, de fato, receber apoio dos governos federal, estadual ou municipal. No Estado de Goiás soltamos o edital e temos 396 vagas de acolhimento gratuitas. Existem também mais de 700 vagas gratuitas de acolhimento por meio do governo federal.

Todas as vagas são ocupadas?

Sim. É um sistema rotativo. Estão disponíveis por meio do Centro Estadual de Avaliação Terapêutica Álcool e Drogas (Ceat-AD).

Como funciona?

Existe equipe multidisciplinar, com médicos, psicólogos e assistentes sociais. Acolhemos pessoas que queriam deixar o mundo das drogas e encaminhamos para as comunidades ou para unidades da rede pública de saúde, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Centro de Referência de Assistência Social (Cras) e Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). Temos também o disque recomeço, para quem quiser orientações. A família pode ligar para saber alguma informação sobre mudança de comportamento do filho, por exemplo. O número é 0800 649 0145. Ligação gratuita e o cidadão terá toda a orientação que buscar.

Tem atendimento presencial?

O atendimento é voluntário. As pessoas que querem sair do mundo das drogas podem buscar o Ceat-AD, na Rua 94, atrás do Hospital Santa Helena. O atendimento é das 8h às 18h.

Falta regularização nas comunidades terapêuticas?

Algumas já se regularizaram. Mas quanto mais estiverem regulamentadas e regularizadas, com todas as documentações em dia, poderão participar desses editais, onde a manutenção desse cidadão enquanto acolhido é financiada.

A crise econômica influencia o trabalho?

A crise atinge principalmente as comunidades terapêuticas que fazem acolhimento. A medida que acolhe existe um custo de manutenção desse cidadão. Existe dentro da regulamentação algumas exigências para essas comunidades. Quanto mais comunidades tivermos repassando esse recurso, maior seria a quantidade de vagas para o acolhimento. Por isso, buscamos realizar orientação e capacitação dos gestores dessas comunidades. Assim, eles poderão buscar esses parceiros.

O setor de segurança costuma ‘culpar’ as drogas pelos altos índices de violência. Esse é o problema?

Sim. Infelizmente o uso e abuso de drogas eleva muito o índice de criminalidade. No final do ano passado, em ação comandada pelo vice-governador, José Eliton, realizamos trabalho de prevenção em bairros de Goiânia que tinham maior índice de criminalidade. Houve redução no índice nesses setores. Realmente, a droga e o convívio de usuários em praças e portas de escolas, por exemplo, eleva os números da criminalidade.

A senhora foi prefeita em Matrinchã duas vezes. Em agosto o então prefeito Daniel Antônio e esposa foram assassinados. Como a senhora reagiu?

Pegou todas as pessoas de surpresa. Por mais que qualquer gestor tenha dificuldades administrativas, de convívio, jamais imaginaríamos que em uma cidade tão pacata, tão tranquila, de pessoas de espírito tão bom e com tantos parceiros, viesse a acontecer esse crime. Até hoje todos estão assustados. Estão sem saber de fato o que aconteceu. O Daniel tinha algumas dificuldades administrativas e, por isso, tinha um número muito grande de pré-candidatos à sucessão...

E agora?

Estive na cidade há pouco tempo e percebi que a vontade de competir pela Prefeitura diminuiu muito. As pessoas estão mais temerosas e preocupadas. Estão vendo que ser gestor municipal não é fácil. Sem contar essa situação de temor de ser assassinado. Agora, algumas pessoas têm dito que ser prefeito é uma dádiva, é um presente de Deus, mas é preciso aproveitar, pois, infelizmente, a pessoa também fica à mercê da sociedade e dessas situações. É muito difícil.

(Apoio: Karla Araujo) 

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